Deus se questiona, sim!

Deus não se questiona.” Essa frase sempre me assustou. Em mãos bem intencionadas, pode ser reconfortante. Um incentivo a humildemente confiar na bondade de Deus quando não podemos vê-la. Mas em mãos erradas, que perigo!

Para líderes religiosos manipuladores, é a arma perfeita. A partir do momento em que se apresentam como porta-vozes de um Deus que não pode ser questionado, suas próprias escolhas também se pretendem inquestionáveis. E os rebanhos se submetem cegamente a critérios opressores de pastores que não merecem esse título.

Contudo, ninguém precisa de um pastor-monstro regendo sua vida para ter medo de questionar Deus. Dizem que ele fica muito bravo quando questionado, e ninguém quer a mão divina pesando sobre si só porque duvidou um pouquinho. Por isso aceitamos, nós mesmos, tradições e paradigmas que não nos servem mais, e que nos oprimem. Nossa própria ideia de Deus pode nos paralisar.

Alguém diria que contestar conceitos e culturas não é o mesmo que contestar Deus, e que podemos fazer o primeiro sem incorrer no segundo. É verdade. Mas questionar Deus não é apenas algo que podemos fazer — em certo sentido, é algo necessário.

Por causa de sua disposição de sacrificar Isaque, Abraão é sempre tomado como exemplo de alguém que não ousava questionar o Altíssimo. Mas esse mesmo cara teve uma discussão épica com Deus quando soube que ele pretendia destruir Sodoma e Gomorra. Abraão questionou, e foi por isso que a família de Ló foi salva.

Apesar de as pessoas costumarem dizer o contrário, Jó inquire Deus várias vezes. O rei Davi, então, nem se fala!

Os escritos dos profetas e dos salmistas são cheios de longos questionamentos a Deus. “Por que você faz isso? Até quando o Senhor vai se comportar dessa forma? Como pode ser bom e permitir tais coisas ao mesmo tempo?” Esse último é ousado, não? Mas, se formos sinceros, é o tipo de coisa que todos nos perguntamos quando lemos o Antigo Testamento.

É engraçado perceber que, sendo questionado sobre suas ações e caráter, Deus não costuma responder com raios e fogo celeste, nessas histórias. Muitas vezes, ele nem responde nada. Talvez porque ele fosse soberano e não devesse explicações. Talvez porque estivesse sendo questionado por coisas que nem tinham partido dele para início de conversa. Já pensou?

Mais tarde, Jesus entra em cena. E o que ele faz? Em seus sermões mais famosos, diz coisas desse tipo: “Vocês ouviram isso e aquilo, mas eu digo que não concordo.” Com quem Jesus não concordava? Com o que todo mundo considerava a palavra de Deus. A Lei de Moisés. “Vocês ouviram que foi dito”… Dito por quem? Por Deus, até onde se sabia. E Jesus questiona. Discorda abertamente. Sugere que aquelas palavras de Deus não sejam mais obedecidas. Ou mais: que Deus é melhor do que as pessoas pensavam.

Quando Jesus se manifesta e diz que o Pai se parece com ele, fica difícil continuar acreditando num Deus cruel e vingativo. Esse é um dos motivos de os filhos de Abraão matarem o Cristo. “Como ele ousa questionar o Deus sanguinário que nossos pais adoraram? Como ousa dizer que o Deus que matou nossos inimigos é assim, tão manso? Quem é ele para dizer que não conhecemos Deus e temos crido num deus que não é exatamente o Criador?”

É essencial questionar nossa ideia de Deus para saber quem ele realmente é. Se ele se parece mesmo com Jesus. É nesse processo que podemos enxergar que temos crido no deus errado. Numa versão de Deus que aprendemos da tradição e não da experiência. Podemos até descobrir que o Deus verdadeiro é bem melhor do que o deus em que vínhamos crendo. Ou mesmo totalmente diferente dele.

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