Como fugir da aparência do mal corrompe a Igreja

É nocivo. É com boas intenções que a maior parte dos evangélicos propaga uma cultura de evitar o escândalo e a aparência do mal a todo custo. Mas isso é nocivo.

Aprendendo a dissimular

Todos nós temos segredos que escandalizariam alguém. Se na minha comunidade é vital não causar escândalos, em primeiro lugar eu aprendo o silêncio e o segredo. Em segundo lugar, eu aprendo a fingir não ter nada a esconder — eu emulo a santidade. Em terceiro lugar, em caso de confronto, eu preciso mentir para sustentar minha fachada. Entenda bem, não se trata de maucaratismo. Pelo contrário! Estou me esforçando para que o escândalo não venha à tona, ferindo quem estiver em volta. Dissimular será uma questão de puro caráter cristão nesse caso. Como podemos, enquanto líderes evangélicos, ensinar ao mesmo tempo nosso rebanho a andar na luz e a não escandalizar ninguém?

Aprendendo a julgar

Quando conheço bem o esforço necessário para manter as aparências, estou a um passo de ser cruel para com quem não faz o mesmo. Afinal, para parecer santo, sou extremamente exigente para comigo mesmo e minhas falhas escondidas. Quando a cultura da minha igreja condena o escândalo, eu me torno hostil ante qualquer um que escape aos padrões de moralidade e comportamento em que eu acredito. No instante em que alguém me choca com uma confissão que eu não poderia esperar de um crente… Assim que eu pego no flagra uma atitude que meu pastor disse de púlpito que nossa igreja não apoia… Ora… É meu dever cristão avisar a liderança ou pelo menos outros irmãos. Você sabe, para orarmos e para evitar que a notícia se espalhe. Para serem tomadas as devidas providências para que ninguém mais seja exposto à aparência do mal. E é claro que, até tudo se resolver, preciso manter distância do irmão que flagrei. Para não dar a ares de compactuar com o pecado dele e tudo mais. Como podemos, ao mesmo tempo, ensinar as pessoas a serem tolerantes e a repudiar o escândalo?

Aprendendo a hipocrisia

É claro que eu mesmo tenho a atitude que flagrei em outro irmão e reportei aos meus líderes. Mas é o tipo de coisa que só faço quando estou com pessoas maduras, que não confundem minhas motivações. O problema não é que eu faça isso nem que meu irmão faça — o problema é ser visto por quem pode confundir as coisas ou se escandalizar. Parece familiar? Como Paulo, dizendo “Você, que julga, faz as mesmas coisas”? Mas isso não deve me preocupar. Afinal, você e eu sabemos que mesmo os nossos pastores escondem umas coisinhas para não nos escandalizar. Estamos todos no mesmo tabuleiro. Como podemos ensinar o ódio ao que foge aos padrões e ainda esperar que nossos rebanhos não sejam hipócritas?

Aprendendo a viver longe de Deus

Numa cultura de silêncio e segredo, todos aprendem a vergonha. Nós não entendemos por que nossos rebanhos têm tão pouca confiança para se achegar a Deus. Mas a cada domingo, estamos diante de um público que pensa isto: “Eu não posso me aproximar. Eu não sou digno. O cantor insiste para eu me entregar, mas ele não entende. Só Deus sabe o que eu escondo. O pastor quer que eu seja como ele, mas não tem noção de que sou uma farsa. Deus tem. Ele não vai me ouvir. Ele nunca vai me usar”. Quanto mais tempo dura o silêncio, mais difícil se torna a confissão. E é assim que nossos pastores vivem desapontados com um rebanho que parece não querer Deus, mas que, na verdade, morre de vergonha dele. Um rebanho que parece não querer ser como seus líderes, mas que, na verdade, vive frustrado por achar impossível ser tão santo quanto seus pastores aparentemente invulneráveis fingem ser. E fingem para evitar a aparência do mal e escandalizar o rebanho. Como podemos incentivar uma vida espiritual enquanto alimentamos um ciclo de mentiras e fachadas?

Aprendendo a não ter valor

Sabe o que a culpa diz? “Eu cometi um erro.” Sabe o que a vergonha diz? “Eu sou um erro.” Pessoas que carregam a vergonha consigo se sentem indignas. E pessoas que não acreditam que merecem ser amadas se contentam com amizades rasas, namoros abusivos, casamentos venenosos. E onde cresce a vergonha, mesmo? No ambiente do silêncio. Onde o diálogo não é bem-vindo. Em ambientes onde não é seguro ser autêntico. E é por isso mesmo que evangélicos têm tanta dificuldade de ser verdadeiros apesar de seu suposto compromisso com a verdade. É preciso ser autêntico para ser como Jesus, mas, por sua autenticidade, Jesus sempre foi escandaloso. A maioria dos evangélicos prefere ser uma réplica da tradição a ser autêntico, porque é menos complicado do que enfrentar o bullying antiescândalo da Igreja. Mas não menos doloroso. O preço da autenticidade é a rejeição da maioria. Mas sua recompensa é a liberdade e a aceitação de pessoas semelhantes em busca de conexão. Já o preço da farsa é a perda do senso de identidade e do senso de propósito. Sua recompensa é a aceitação superficial de uma maioria que oferece conexões tão rasas quanto suas próprias fachadas. Conexões verdadeiras exigem que nenhum dos lados esteja fingindo. Como podemos esperar laços profundos entre os fiéis das nossas igrejas e ensiná-los a fingir perfeição ao mesmo tempo?

Aprendendo a imaturidade

Evitar a todo custo escandalizar os outros até mesmo com a mera aparência do mal é uma cultura que existe por má interpretação bíblica com a intenção de proteger mentes mais imaturas. No fim, o que essa cultura realmente faz é manter pessoas na imaturidade por mais tempo. Em vez de serem preparadas para lidar com as diferenças em sua própria comunidade e mundo afora, elas aprendem que diferente é pecado. Diferente é ruim. Quando deparam com uma diferença teológica ou de conduta ou de fé, não sabem dialogar, muito menos abraçar. Se choca, se foge aos padrões, deve ser combatido. Como podemos ensinar a amar nossos inimigos quando nosso rebanho foi ensinado a combater qualquer coisa que fuja ao padrão? Se eles não estão preparados para amar sequer os da comunidade local? Como incentivá-los a buscar a maturidade de Cristo, se eles não são maduros nem mesmo para entender a diferença de fé e conduta do seu próximo?

Aprendendo a viver como ímpio

Silêncio e segredo. Dissimulação. Fingir ser outra pessoa para ser aceito. Hostilidade para com quem não pensa e age como eu. A hipocrisia. A vergonha. A imaturidade. A sensação de indignidade e a consequente separação de Deus e dos meus semelhantes. Estou descrevendo, ao mesmo tempo, a vida ímpia e a vida da maioria dos evangélicos que você conhece. Essa é a gravidade aterradora da nossa cultura, que quebra o meu coração e que espero que quebre o seu também, a ponto de você se rebelar contra o status quo como eu. Só existe um antídoto para ele. O oposto de uma cultura que incentiva fugir da aparência do mal e do escândalo: uma cultura que abraça e incentiva a vulnerabilidade.

 

5 comentários

  1. Se todos os cristãos tivessem oportunidade de ler seus textos! Incrível a forma como consegue expressar o que muitos, quase todos ou todos sentem, e não têm coragem de falar, de expressar. Keep on writing man, keep on writing. 👏🏻👏🏻

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s