Filhos de pastores: menos glamour do que parece

Numa recente reunião entre líderes de uma grande igreja em São Paulo, certa questão recorrente entre os jovens veio à tona. Meu amigo não faz parte dessa comunidade específica, e não estava presente na ocasião. Mas seus pais, que atuam ali, tomaram a liberdade de compartilhar da vida dele para ilustrar maneiras de tratar a pauta. Seu testemunho ajudou muito a liderança e, por conseguinte, os aproximou de vários jovens que se sentiam desorientados, e que agora encontram refúgio nesse casal.

Devo confessar minha dificuldade de imaginar que algum cristão acharia qualquer coisa estranha nesse relato. Acredito que parece uma história perfeita para todo mundo. Mas meu amigo, enquanto contava essas coisas, me disse o seguinte, em tom bem-humorado:

— Afinal de contas, por que não usar seu filho de vinte e cinco anos como exemplo sem consultá-lo? Claro, vamos nessa! Estou acostumado.

Eu, do ponto de vista que só poderia vir de alguém que conhece essa realidade, respondi, com um sorriso sarcástico:

— Filhos de pastores não têm a escolha de recusar a vida pública.

Lembro de assistir a diferentes palestrantes tentando explicar, num púlpito, que é difícil estar na minha posição. Para mim, difícil mesmo era não rir do esforço que faziam para se convencer de que pessoas como eu também sofrem. O discurso era quase tão engraçado quanto a imagem de uma passeata levando placas com os dizeres “Filho de pastor também é gente!” É natural que isso aconteça porque nossa cultura romantiza a vida pública. Assim, quando seus pais são pastores, você cresce assistindo ao modo velado como seus irmãos reduzem sua imagem pessoal à de uma pessoa injustamente privilegiada, protegida por nepotismo, e que não sabe nada da vida real.

Apenas o que acabo de dizer deveria ser suficiente para concluir que a realidade eclesiástica de pessoas na minha condição tende a ser mais difícil do que a do cristão comum. Mas quer saber a verdade? Se eu disser que existe um crente, filho de pais ímpios, que não contribui ativamente com sua comunidade, mas que ali recebe tratamento especial por conta do que enfrenta em casa, todo evangélico se compadece. Acha justo. Pobrezinho do garoto. Mas quando um filho de pastor recebe o mesmo tratamento? Ultraje. Ele certamente vive num contexto privilegiado. Por que tratá-lo como se fosse uma criança normal?

Comparando esses dois meninos, se eu disser que o filho de pastor carrega um fardo emocional por toda a igreja local e que, ao contrário do primeiro garoto, se engaja de corpo e alma com tudo na igreja, vão me responder que ele não faz mais que sua obrigação. Não merece mais que ninguém. De qualquer maneira, é importante garantir que ele receba até menos que os outros garotos, para não parecermos uma igreja nepotista. Essa é frequentemente a postura que os próprios pais, os pastores, assumem para evitar “a aparência do mal”.

Alguém poderia alegar que esse tipo de comparação não é justa, porque um filho de pais ímpios lida com problemas domésticos que jamais passariam perto de um lar sacerdotal. Mas filhos de pastores no mundo inteiro podem afirmar que sofrem com sua família os mesmíssimos problemas que qualquer um, porque seus pais, para surpresa geral, são tão humanos quanto os pais ímpios. Ou menos. Pois a religião pode desumanizar certas pessoas com mais força do que o álcool ou a falta de fé. Mas, além disso, famílias pastorais enfrentam problemas que nem ímpios nem crentes comuns podem imaginar.

A maioria dos cristãos pode expressar respeito pelos primeiros apóstolos, que, por sua posição, se tornaram “espetáculos para o mundo”. Diante desse título, uma parte da Igreja escolhe fugir de grandes comprometimentos com Deus e religião para não correr o risco de acabar no mesmo time de Paulo. Outra parte se esforça para alcançar a devida abnegação, almejando entrar para esse time, como se representasse o ápice da nobreza cristã. Enquanto isso, os filhos de pastores não se encontram em nenhuma das duas posições. Somos espetáculos de qualquer jeito desde a infância. Para grandes ou menores públicos. Mas espetáculos, inevitavelmente, não apenas para o mundo, como também para os crentes.

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