Por favor, me escandalize

Deus me livre de escandalizar alguém. Você não diria a mesma coisa? Passei a vida num esforço desumano para não pisar no calo de ninguém. Hoje, suspeito que teria ajudado algumas pessoas mais do que consegui se não tivesse tanto medo de ofendê-las.

Não existe Cristianismo sem ofensa. Esse é o sentido da famosa frase paulina “O Evangelho é um escândalo”. Não porque se trate de uma mensagem pouco amorosa, mas porque nós somos muito imaturos, egocêntricos e despreparados para a possibilidade de estar enganados.

Paulo, em Romanos, escreve para judeus. Começa sua carta expondo o típico pensamento judaico de superioridade por linhagem, tradição e escolha divina. E depois desmantela todo o orgulho inflado de seus leitores, nivelando-os com as pessoas que eles pensam ser as mais depravadas do mundo. Paulo diz: somos todos iguais.

Você imagina como um judeu se sentia quando Paulo dizia “a circuncisão, que você acredita que o torna especial diante de Deus, não significa nada”? Eles passaram a vida tentando cumprir a Lei para agradar a Deus, e Paulo simplesmente diz: “Quem acredita em Deus e não segue a Lei é mais filho de Abraão do que vocês, que fazem de tudo para cumpri-la, mas não confiam em Jesus. Mesmo que eles sejam gregos!” Extremamente ofensivo.

É claro, Paulo não estava tentando escandalizar ninguém. Mas aí está uma lição para nós, evangélicos.

Pense no que fazemos quando alguém desafia nossas crenças. Quando questionam aquilo que nosso primeiro pastor ensinou. As bases da nossa denominação. O que tem sido tradição desde a Rua Azusa ou aquilo que provamos em secreto. Se alguém questiona ou contradiz isso, nós nos “escandalizamos”. Nos ofendemos. E, como temos certeza de que a Bíblia proíbe o cristão de escandalizar a gente, nem consideramos o diálogo. O outro está errado e pronto.

Há momentos em que uma mão estranha invade nosso espaço pessoal e se estende em direção a nosso pescoço. Um ultraje. Reagimos com a raiva de quem está para ser estrangulado. Latimos e mordemos sem piedade nem tempo para pensar. A ofensa pode fazer o ego sentir que está à beira da morte.

Amadurecimento é um processo em que a morte do ego se torna cada vez menos um problema e cada vez mais uma fonte de benefícios. Por isso pessoas maduras oferecem a outra face. Deixam a mão do estranho se aproximar. E às vezes descobrem que ela veio soltar sua coleira.

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