Regras não importam tanto quanto você pensa

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Passamos tanto tempo nos perguntando se as coisas são certas ou erradas. Para qualquer cristão sincero, existe um momento de perceber que demasiado tempo da vida foi gasto à base do pode-não-pode. E quando se chega a uma observação clara dos resultados desse estilo de vida, seja à luz das Escrituras ou simplesmente pela avaliação franca da própria experiência, percebe-se quanto ele é infrutuoso e arrasador.

Posso adotar para com meus pais uma atitude que outro filho tem para com os seus próprios pais e que sua família considera normal? Se algo é permitido entre meu amigo e sua esposa, posso admitir que a mesma coisa deveria ser permitida entre mim e minha esposa?

Quando consideramos as pessoas que importam, não existe um manual para decidir o que é lícito e o que não é, o que convém e o que não convém, o que edifica e o que não edifica. Existe um complexo de padrões exclusivo para cada relacionamento que eu tenho. O que vale com um amigo não vale com outro. O que não vale com minha mãe vale com minha filha. E isso só se descobre no próprio relacionamento, com diálogo, com empatia.

A questão sobre o que podemos ou não diante de Deus enquanto cristãos não é a questão certa. Deveríamos perguntar o que podemos ou não diante de Deus enquanto pessoas. Considerando quanto ele é pessoal. Dessa perspectiva, vou descobrir que também estou sem manual, e o que serve para o outro em seu relacionamento com Deus não é necessariamente o que serve para mim e vice-versa.

É claro que a mente religiosa se apressa a alegar que a Bíblia é o manual definitivo para qualquer pessoa se relacionar com Deus. Mas este é o argumento que não considera nem a personalidade do indivíduo nem a pessoalidade de Deus. É o argumento de quem pensa em Deus como entidade a ser obedecida em vez de como pessoa a ser amada.

A força da santidade não reside em nenhuma regra. Regras, na verdade, potencializam o fracasso da jornada rumo à santidade. Essa é uma das mensagens centrais do discurso paulino que pouco se escuta na comunidade evangélica hoje. Mas onde não há amor, violar a regra é muito fácil. A própria proibição desperta o desejo. E o desejo é poderoso. Que regra pode matá-lo? Nenhuma.

Mas a morte do desejo não é o objetivo maior a ser alcançado. A questão, de fato, não é apenas o que desejo, mas como me comporto frente ao desejo. Viver em santidade sem a tentação não seria prova de amor. Não seria grande coisa. Prova de amor é não fazer o que quero porque me importo com o que o outro vai sentir. Este é o sentido de negar-se a si mesmo – não uma atitude masoquista ou autopunitiva, mas a decisão de colocar o amado acima do ego.

Outras pessoas podem encontrar nas Escrituras argumentos que apoiem certos comportamentos. Por isso, eu não preciso pensar antes de escolher como agir? Por que alguém já decidiu por mim se pode ou não pode? Mas e se Deus, no meu quarto, no meu coração, me diz algo que contraria os sólidos argumentos teológicos dos outros? E se Deus me leva a outros argumentos teológicos igualmente válidos?

Em seu livro O impostor que vive em mim, Brennan Manning faz uma leitura especial do momento em que Jesus pergunta insistentemente a Pedro: Você me ama? Ali, pela primeira vez na história das religiões, um Deus se importa com o que sentimos por ele. Ele pergunta se nos importamos com ele. Nesse caso, não posso determinar como ajo baseado apenas em regras. Não é o bastante para ele. Ele quer que eu faça ou deixe de fazer as coisas por mais do que obediência cega e fria. Ele quer meu coração aquecido e envolvido em minhas escolhas. Ele quer minha paixão. Ele quer que eu descubra o complexo de padrões exclusivo ao nosso relacionamento por meio de diálogo e empatia.

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