Música secular é demoníaca?

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Em nosso tempo, a separação que os evangélicos costumam fazer entre música gospel e música secular implica que a primeira seja santa e a segunda, demoníaca. Isso é um conceito generalizado. Mas é bíblico?

História bíblica da música secular?

Se você buscar uma separação doutrinária objetiva entre música religiosa e mundana na Bíblia, não vai encontrar. Nem mesmo nas histórias mais remotas dos israelitas. Na verdade, os livros bíblicos construídos de maneira poética e musical, como os Salmos, Eclesiastes e Cantares, abordam desde temas estritamente religiosos aos mais mundanos, como o trabalho, o desejo de vingança, o dinheiro e o sexo. Não se vê, na manifestação artística bíblica, uma separação categórica entre o que é sagrado e o que é mundano. Nesse contexto, tudo é espiritual: o religioso e o cotidiano girando como uma coisa só — a vida — em torno da glória de Deus. Ele ensina, sim, seu povo a separar o santo do profano. Mas a diferença que faz entre ambos não é a mesma que nós fazemos hoje. Agora, se a separação entre gospel e secular, que aceitamos como regra incontestável, não veio da Bíblia, de onde veio? Da Idade Média.

Onde tudo começou

Na Idade Média, a Igreja passou a oferecer seu selo a peças artísticas específicas, que serviriam para fazer parte da realidade eclesiástica — isto é, para estar dentro dos templos e inseridas nos cultos. Essas peças eram de temática exclusiva religiosa; a arte sacra. Qualquer peça artística que não fosse de cunho religioso não era trazida para dentro da Igreja. Esse tipo de arte era chamada de profana. Daí começa a se desenvolver nossa complexa cultura que prega que aquilo que é feito pela Igreja e para Igreja é inerentemente santo, e qualquer coisa produzida fora da Igreja é demoníaca — como se profano significasse diabólico, quando na verdade, na época, significava apenas “o que está fora do templo”.

Origem e contaminação

Se uma tradição religiosa cristã não for encarada de forma objetiva diante das Escrituras, precisará se tornar cada vez mais sofisticada para se sustentar. Então, da simples separação entre “música de Igreja” e “música do povo”, evoluímos para a ideia de “música inerentemente santa e santificadora” e “música inerentemente demoníaca e demonizadora”. Nosso pensamento atual alega que o que um cristão produz é necessariamente puro moralmente, que é ungido por Deus e abençoa, simplesmente pelo fato de ter partido de um cristão. Mas aquilo que é produzido por um não cristão, que é, mesmo que não queira, um “servo de Satanás”, é necessariamente contaminado por uma alma decadente e sua “anti-unção”: uma energia mágica que pode macular qualquer um que tiver contato com certa peça artística, arrastando-o para o Lado Negro da Força. Eu coloco dessa forma para que o absurdo se faça notório, mas tudo isso, como você deve saber, é amplamente aceito pelos evangélicos como absoluto, o que é assustador, uma vez que é totalmente antibíblico. Quero dizer, você pode acreditar nisso se quiser, e basear-se em inúmeros casos particulares que tornam a ideia toda mais crível. Pode acreditar, só precisa saber que não é bíblico. Mas isso a gente trata no próximo texto.

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