Para você, as coisas não são tão simples?

 

Muitas vezes, enquanto eu falava em igrejas, notei algo estranho no ar. Pairava um pensamento coletivo que dizia mais ou menos isso: “Para você é fácil dizer. Para mim não é tão simples assim.”

Essas frases não parecem inocentes? Na verdade, são muito perigosas, porque sutilmente justificam a rejeição da ajuda que poderíamos receber. Além disso, elas escondem tanta sujeira, que você pode ficar surpreso.

Para você é fácil

Sabe o que fazemos antes de dizer “Para você é fácil”? Nós comparamos a nossa experiência com a experiência do outro. Mas o que costumamos fazer ao nos compararmos a alguém? No nosso prato da balança, colocamos nossas maiores lutas. No prato do outro, seus maiores privilégios. É a nossa realidade, que conhecemos muito bem, versus uma idealização da realidade do outro, que realmente não conhecemos. Em outras palavras, a nossa comparação é totalmente injusta.

Experiência e autoridade

O que fazemos depois de comparar é julgar. Dizemos que alguém acha fácil nos instruir a lutar porque primeiro julgamos que ele mesmo nunca tenha lutado na vida. Nós observamos sua aparência, sua vida virtual, o que nos disseram a seu respeito, e concluímos: nasceu em berço de ouro, ganhou tudo de bandeja, não conhece a vida real, não sabe do que está falando. Quando julgamos, subestimamos a dor secreta do outro, todas as dificuldades que ele teve que superar e que nem imaginamos. Experiência acarreta autoridade. E, se julgamos o outro inexperiente para nos ajudar, negamos sua autoridade para nos ajudar.

Para mim, não é tão simples

Talvez, o maior problema do pensamento que estamos enfocando esteja aqui. A autopiedade. Somos capazes de achar que estamos nos colocando em posição de humildade quando o que está acontecendo é o oposto. Sabe, o orgulho não diz apenas “Eu sou muito bom”. Um dos jargões preferidos do orgulho é “Coitadinho de mim”. O orgulho é um senso de mérito. E podemos ter a sensação de mérito por aquilo que conquistamos, assim como podemos crer que temos mérito por causa daquilo que sofremos. Em vitória, o orgulho diz “Eu mereço, porque conquistei”. Em fracasso, o orgulho diz “Eu mereço, porque sofri”. Isso é algo que aprendi com John Piper e me ajudou muito.

Rejeição

Quando dizemos “Para você é fácil, para mim é difícil”, a autopiedade tenta nos iludir. Parece que estamos reconhecendo nossas fraquezas, e então somos humildes. Mas não. O que ocorreu foi um processo de comparação, que leva ao orgulho (C.S. Lewis já disse isso em Cristianismo Puro e Simples). Foi um processo de julgamento, que desmantelou a imagem do outro, reduzindo toda sua autoridade a uma suposta posição imerecida. E foi um processo de vanglória, em que supervalorizar o próprio sofrimento nos levou a pensar que éramos bons demais para receber ajuda de quem não deve ter sofrido como nós. Assim, rejeitamos a exata mensagem que poderia nos ajudar.

 

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