O devorador de almas

sidaths

Sam era ensinado diariamente pelo ancião mais sábio da aldeia numa classe para jovens de sua idade.

O mestre ensinava a filosofia da tribo; a harmonia constante entre as pessoas e o bem. De acordo com a tradição, esse estilo de vida era a única coisa que os protegia de um poderoso inimigo místico. Mérev era seu nome, o Devorador de Almas.

Anciãos e jovens percebiam o mesmo. Entre as mentes mais fracas, o medo estava crescendo com o passar dos anos. Havia relatos por todos os lados. Alguns diziam ter ouvido os passos de Mérev ao redor da aldeia durante a madrugada. Outros, que acordavam no meio da noite com sussurros do Devorador dentro de suas mentes.

Os anciãos faziam o possível para acalmar os ânimos. A tradição ensinara que Mérev se aproximava ao farejar o mal. Um cheiro como o do medo. Um cheiro como o da desconfiança.

Sam fugiu à noite. Agora que era forte o bastante para levantar uma espada, cumpriria a promessa que fizera a si mesmo quando criança. Mérev tinha que morrer.

Não foi preciso andar muito. A pouca distância da aldeia, no meio da escuridão, o rapaz avistou uma fogueira. Ao seu lado, deitado sobre a grama, um estranho corpo parecia dormir. O corpo de um antigo guerreiro.

Arrepios percorreram a pele de Sam, que se aproximava em silêncio. O Devorador seria pego desprevenido.

A cada passo, porém, uma inegável sensação aumentava. Mérev irradiava um magnetismo que atraía para si cada um dos músculos de Sam.

Um último passo. Sam ergueu sua espada. Lutava contra a forte energia. Tremia. E não conseguiu mais resistir. Caiu sobre Mérev.

Sam se desesperou. Começou a se debater. Uma espessa substância negra e viscosa parecia escapar pelas frestas da armadura do Devorador. O fluido se apegava ao corpo de Sam e endurecia, paralisando o garoto.

Em poucos segundos, Sam estava coberto. Apenas seu rosto se movia fora da gosma negra que continuava ganhando território, subindo pelo pescoço do rapaz em busca de suas vias respiratórias. Sam gritou.

Imediatamente, caiu água de algum lugar sobre ele e seu inimigo. Sam sentiu-se retomando os movimentos e todo o fluido que o recobria se desfez numa fumaça fétida.

Livre, o garoto rolou para longe, perplexo e amedrontado. Seus olhos acabaram pousando sobre o seu mestre. Parado entre Sam e Mérev, o velho olhava paciente, segurando uma vasilha sagrada do templo da aldeia.

– Acalme-se, Sam. – Disse o velho. – O Devorador está morto. Está morto há muito tempo, filho.

O ancião estendeu a mão e ajudou o garoto a levantar-se. O corpo de Mérev continuava deitado na mesma posição de sempre. A fogueira, porém, não estava mais lá.

Enquanto Sam tentava assimilar a realidade de tudo aquilo, seu mestre o envolveu com uma manta e colocou-se a caminho da aldeia. Sam o acompanhou em silêncio.

– Não se deve lutar contra os mortos, Sam. Não se deve nem olhar para inimigos como Mérev. Isso pode despertar a maldade da nossa imaginação, você sabe. Vamos para casa, agora. Você vai ficar seguro se permanecer na comunidade.

[Photo: Sidath Senanayake]

17 comentários

    1. Oi, Maressa. A comunidade é uma metáfora. É você quem escolhe o que ela significa para você. :)

  1. Parabéns… Quando eu lir esse texto me fez lembra do passado ..mas deus sabe de todas as coisas Deus te envio para o nosso caminho para falar do nosso senhor .. Deus me manda lhe falar que VC ganhara mas do que VC ganha que eu creio que VC ganhara uma promessa em sua vida, Vc e uma pessoa muita abençoada pelo o nosso Jesus Cristo e ele me manda te dizer que VC terá uma grande bênção em sua vida e na vida da sua família

  2. Simplesmente Maravilhoso
    Falou muito ao meu coração !
    eu acho que eu estava vivendo isso tudo …
    Eu estava tentando lutar contra uma coisa que é desnecessárias
    Eu tenho que camimhar ,buscar, adorar .Viver Jesus ,para Jesus ♡♡
    Fico muito feliz por enfim chega à essa conclusão .
    *
    Como você já havia mencionado em um dos seus textos
    A gente não deve fica lutando contra o pecado . Isso e efetuado através da nossa caminhada,doação à Deus.Abraços ,amigo!!!

    Que

    1. pois é! quando eu tive a ideia pro texto, a vila nem me passou pela cabeça. mas, quando comecei a escrever, o filme me veio à mente. apesar disso, os elementos simbólicos, o vilão, e a moral desta história são totalmente diferentes dos do filme. :)

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s